O Boi Bumbá Caprichoso consolidou uma das apresentações mais arrebatadoras e tecnicamente perfeitas de sua história no 59º Festival Folclórico de Parintins. Sob o tema geral “Caprichoso – Brinquedo que Canta Seu Chão”, a agremiação da estrela na testa construiu um manifesto de amor, ancestralidade, resistência política e cultural ao longo de três noites mágicas na arena do Bumbódromo.

Abaixo, a Toque de Folia traz o relato completo do espetáculo que marcou a temporada de 2026.
Primeira Noite: O Brinquedo do Povo Canta: Parintins – O Chão de Origem
A jornada azulada começou com o subtema “O Chão de Origem”, transformando a arena em um imenso boi de rua para exaltar Parintins como o território sagrado das promessas e afetos. Conduzido pelo apresentador Edmundo Oran, pelo levantador Patrick Araújo e pelo Amo Caetano Medeiros, o boi surgiu içado ao lado da tradicional Vaqueirada, enquanto o Tripa Edson Jr. comandava a evolução do dono da festa.
O resgate histórico ganhou força com a Figura Típica Regional “O Brincador de Boi-Bumbá de Parintins”, que homenageou os tradicionais redutos da Francesa, Santa Clara, Aninga, Parananema, Cordovil e Palmares. O momento contou com a participação de alunos da Escola de Arte Irmão Miguel de Pascale e mais de 400 figurantes. Na sequência, a Porta-Estandarte Marcela Marialva dominou o cenário, e a Sinhazinha Valentina Cid surpreendeu o público ao flutuar sobre a arena em uma evolução de pura leveza.
Clímax na Encantaria e Emoção de Raiz
Um dos momentos mais impactantes foi a Lenda Amazônica “Cobra Grande – A Deusa da Encantaria”, assinada por Alex Salvador. Utilizando tecnologia LED, efeitos de CO₂ e gelo seco, a estrutura revelou a Cunhã-Poranga Marciele Albuquerque em uma transformação impressionante que incendiou a galera.
A noite guardou ainda uma dose extra de emoção: o retorno do ex-Amo Rei Azevedo para dividir versos com Caetano Medeiros. Acometido por complicações da diabetes que lhe tiraram a visão, Rei emocionou o Bumbódromo ao tocar seu berrante e provar a imortalidade da tradição. O espetáculo do primeiro dia foi encerrado com o impactante Ritual Indígena “Wat-Amã – O Ritual da Tucandeira”, do povo Sateré-Mawé, capitaneado pelo Pajé Erick Beltrão sob uma gigantesca estrutura cênica de autoria do artista Algles Ferreira.
Segunda Noite: O Brinquedo Ancestral Canta: Amazônia – O Chão da Vida
Na segunda apresentação, o Caprichoso expandiu seu olhar com o subtema “O Brinquedo Ancestral Canta: Amazônia, o Chão da Vida”. O espetáculo ousou ao trazer a monumental alegoria da Lenda Amazônica “Curupira, o Guardião da Vida”, de Roberto Reis. No centro do módulo, Marciele Albuquerque protagonizou um dos ápices do festival ao transformar-se cenograficamente em onça-pintada e onça-negra.
A sensibilidade tomou conta do Bumbódromo quando Valentina Cid evoluiu ao som de “Rostinho de Anjo”, mudando seu figurino em tempo real para as cores de um beija-flor. Logo depois, a Vaqueirada prestou uma homenagem histórica ao compositor Ronaldo Barbosa, ecoando as estrofes de “Saga de um Canoeiro”.
“Estou com o coração mais tranquilo. São coisas sobrenaturais que entram no nosso corpo para fazer todas essas emoções acontecerem”, declarou o Pajé Erick Beltrão após realizar uma impressionante cena de levitação, içado pelo espírito Mukaia no encerramento do Ritual de Transcendência Assurini.
Um Marco de Diversidade
O item Tuxaua quebrou barreiras e fez história no festival. As morubixabas Irá Maraguá, Ayla Hiskareana e Lup Moara pisaram firmes na arena, consagrando Lup como a primeira mulher trans a defender o item no Festival de Parintins, unindo a excelência técnica ao orgulho LGBTQIAPN+.
A noite ainda apresentou a Exaltação Cultural “Festa do Povo da Floresta”, de Eddi Dude, promovendo um mosaico rítmico que uniu manifestações de todo o Norte, do carimbó paraense ao marabaixo amapaense, abrindo alas para Marcela Marialva voar sobre o Bumbódromo em uma imponente arara-azul.
Terceira Noite: O Brinquedo da Resistência Canta: Norte Brasil – Chão de Bravos
O encerramento do festival foi desenhado como um verdadeiro manifesto político e poético sob o subtema “O Brinquedo da Resistência Canta: Norte Brasil – Chão de Bravos”. A noite começou com a imponente Lenda Amazônica “Nhaçã-Heká – Macacos Comedores de Gente”, de Geremias Pantoja, contextualizando a herança da Ilha do Bananal. Conduzida pelo Urubu-Rei, a cunhã Marciele Albuquerque reapareceu triunfal para saudar a força das mulheres indígenas.
A celebração da vida cabocla alcançou o ápice na Figura Típica Regional “As Farinheiras da Amazônia”, dos artistas Makoy Cardoso e Ney Meireles, uma bela homenagem matriarcal às produtoras de farinha da floresta. Outro momento de grande plasticidade visual foi a evolução da Rainha do Folclore, Cleise Simas, que desceu na arena a partir de um balão cenográfico em formato de estrela, idealizado por Brás Lira.
Encerramento Místico e Confiante
Após reverenciar o poeta Chico da Silva com a clássica toada “Meu Amor é Caprichoso”, o bumbá fechou o seu planejamento de arena com o espetacular Ritual Indígena “Povo do Céu”, inspirado na cosmologia Xikrin e assinado por Juscelino Ribeiro. O Pajé Erick Beltrão surgiu em uma estrutura colossal em forma de aranha, representando a ponte entre o plano físico e o espiritual.
Diretoria celebra sucesso absoluto e foca no título
Ao final do terceiro ato, a sensação de dever cumprido e a precisão cronométrica — que fez o boi encerrar as apresentações rigorosamente dentro do tempo regulamentar — inflamaram a diretoria.
O presidente do Boi Caprichoso, Rossy Amoedo, não escondeu o entusiasmo e celebrou a união de todos os segmentos:
“Hoje foi um dia espetacular. Presenciamos essa história de uma forma muito especial. Parabenizo o Conselho de Arte, em nome do presidente Ericky Nakanome, e o Edwan Oliveira, que fizeram um trabalho incrível com todas as nossas equipes. Foram três grandes atos em uma ordem crescente, que se encerraram com essa energia e, se Deus quiser, com o título de campeão.”
O diretor de arena, Edwan Oliveira, endossou o sucesso do projeto temático: “Contamos a nossa raiz, a nossa história e a nossa abrangência para a região Amazônica, para a região Norte, até alcançar esse Brasil brasileiro. Conseguimos concluir o projeto que nos propusemos a apresentar”, finalizou.






