O Boi-Bumbá Garantido realizou, na noite da última sexta-feira (17), a sua tradicional Matança do Boi, ritual centenário que marca simbolicamente o encerramento das festividades da temporada vermelha e branca. Mantida religiosamente viva pela família Monteverde, a celebração acontece todos os anos logo após os festejos de Nossa Senhora do Carmo, arrastando uma multidão pelas ruas de Parintins para acompanhar a histórica “fuga” do bumbá.

O ritual consiste na encenação do clássico Auto do Boi, drama folclórico que retrata o desejo de Mãe Catirina de comer a língua do boi da fazenda, com a narrativa tradicionalmente moldada por mestre Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido.
O Legado de Lindolfo Além do Bumbódromo
Para Magaly Monteverde, neta do fundador, manter esse costume estende a essência do boi-bumbá para além das três noites de disputa no Festival de Parintins, reforçando os laços de afeto e memórias da comunidade da Baixa do São José.
“Meu avô, todos os anos, realizava a Matança do Boi, quando convidava todos os amigos para participar. Era um momento de agradecer a todos que colaboraram com o Garantido durante o período de maio e junho, nas festas de boi pelas ruas de Parintins. Hoje, mantemos esse costume. Sabemos que o boi não se limita ao Bumbódromo, mas tem suas tradições de rua, como as ladainhas de São João e Santo Antônio e a Matança”, explicou Magaly.
O Mistério dos Chifres Verdes
Um dos detalhes que mais desperta a curiosidade do público e dos brincantes é o uso de chifres envoltos em palhas verdes de palmeira (piririma) especificamente para esta ocasião. Segundo a rica tradição oral da Baixa, o adereço simboliza o desespero do boi fugitivo tentando despistar os vaqueiros.
“As palhinhas no chifre representam o momento da fuga do boi pela floresta. O boi não quer morrer, ele foge pelas matas e, ao sair correndo dos vaqueiros, as palhas, folhas e cipós acabam se trançando nos chifres. Por isso colocamos os chifres verdes para representar esse momento”, detalhou a neta de mestre Lindolfo.
Noite de Ritmo, Cinema e Ressurreição
A programação cultural teve início às 18h no Curral Tradicional do Garantido, com distribuição de doces para as crianças, evolução do boi mirim Tupi e shows de Alessandra Moreno e Eneas Dias. O público também pôde conferir o grupo Toada de Roda e a exibição do documentário “Quilombo Baixa da Xanda”, produzido por Cleumara Monteverde.
Por volta das 22h, o momento mais aguardado ganhou as ruas: acompanhado pela Batucada, por um trio elétrico e por milhares de torcedores encarnados, o Garantido iniciou sua jornada de fuga. A perseguição dos vaqueiros seguiu até a Paróquia de São José Operário, onde o bumbá foi finalmente laçado. De volta ao Curral Tradicional, o Auto culminou com a morte simbólica do boi para dar lugar ao momento máximo da celebração popular: a sua emocionante ressurreição, renovando as energias e esperanças para o próximo ciclo bovino.






