O Boi-Bumbá Garantido concluiu a sua participação no 59º Festival Folclórico de Parintins com um espetáculo de imensurável valor cultural, técnico e emocional. Defendendo o projeto artístico planejado ao longo de dez meses de reconstrução administrativa e artística, o Boi do Povão transformou a arena do Bumbódromo em um manifesto vivo em prol da pluralidade, do matriarcado e da resistência dos povos da floresta, inflamando a nação vermelha e branca na busca pelo bicampeonato.

Abaixo, o canal Toque de Folia detalha a trajetória da agremiação nas três noites de festival.
Primeira Noite: Parintins, o Portal do Encantamento
Abrindo o festival da noite de sexta-feira (26) para a madrugada de sábado (27), o Garantido deu o pontapé inicial com o subtema “Parintins: Portal do Encantamento”. Na concentração, o presidente Fred Góes externou total confiança no refinamento artístico do boi de arena: “O Garantido chega para dizer para o que veio: Ser campeão. Para isso foram dez meses de trabalho árduo. Vamos trabalhar com 15 alegorias”, afirmou. O Pajé Adriano Paketá também previu um fechamento dinâmico e organizado para a noite de estreia.
No gado, a narrativa apresentou Parintins como uma terra mística onde a natureza e a espiritualidade caminham juntas. Os principais destaques da noite foram:
- A Origem do Céu: A lenda amazônica “Parintintin, o Povo que Veio do Céu” resgatou a tradição oral do povo Parintintin através da jornada do herói criador e pajé Pindova’Umi’ga.
- Força Matriarcal: A Figura Típica Regional “Mães da Floresta” prestou uma sensível homenagem ao protagonismo feminino na preservação dos saberes tradicionais e ecossistemas.
- Transe Xamânico: O Ritual Indígena “O Sonho de Ipají” encerrou o primeiro ato mergulhando na formação espiritual de um pajé sob a ótica da cosmovisão Parintintin.
Segunda Noite: Portal da Diversidade
Na noite de sábado (27), o bumbá retornou à arena sob o lema de que “todos somos parentes”, defendendo o subtema “Parintins: Portal da Diversidade”. O diretor de arena Telo Pinto e o diretor musical Alder Oliveira destacaram a precisão e o acolhimento técnico do espetáculo, que contou com um bloco musical impecável liderado pelo levantador David Assayag e pelo Amo Israel Paulain, acompanhados pela cadência firme da Batucada.
O espetáculo ganhou linhas apoteóticas com quadros de forte apelo étnico:
- A Onça-Mãe: A lenda “Kamara”, inspirada na cosmologia do povo Kamarayana (subgrupo Hexkaryana), trouxe a força espiritual da floresta. “Vivenciar a Kamara é grandioso. Ela tem um significado muito importante para nós”, descreveu a Cunhã-Poranga Isabelle Nogueira.
- Sustentabilidade: A Figura Típica Regional “Coletores da Amazônia: O Povo do Jamaxi” reverenciou o trabalhador extrativista.
- Raízes Negras: Um dos ápices da noite foi a coreografia “Quilombo da Baixa”, que contou com a participação especial do Balé Folclórico da Bahia para saudar o quilombo afro-indígena Baixa da Xanda e as divindades de matriz africana. O espetáculo foi selado com o imponente Ritual Hexkaryana.
Terceira Noite: Tradição na Terra Encantada e o Adeus da Cunhã
No domingo (28), o Garantido fechou a sua trindade de apresentações com o subtema “Parintins, Terra Encantada”. Em um clima de união na concentração, a Sinhazinha Raíra Lins prometeu entrar em arena com garra e alegria para brincar com a galera. O espetáculo resgatou a essência dos folguedos juninos na abertura e reviveu a história do povo Konduri através da Lenda Amazônica “Templo do Sol”, protagonizada pelo guerreiro Kwaracy.
O fundador Lindolfo Monteverde foi reverenciado na Figura Típica Regional “Festeiro de Santo”, enquanto o Ritual Indígena “A Travessia das Cinzas” desvendou a passagem sobrenatural entre o mundo material e espiritual dos Konduri. Para a alegria dos torcedores saudosistas, o Garantido trouxe de volta o icônico elemento alegórico Belezão e promoveu o tradicional banho de cheiro na arena.
O Emocionante Ciclo de Isabelle Nogueira
O momento de maior comoção coletiva de todo o festival foi a despedida oficial de Isabelle Nogueira. A artista encerrou um ciclo histórico de dez anos dedicados ao festival (sendo três anos como Rainha do Folclore, de 2015 a 2017, e oito anos defendendo o Item 9 de Cunhã-Poranga, de 2018 a 2026). Debaixo de uma enorme homenagem vinda das arquibancadas, Isabelle declarou em manifesto pós-arena:
“Confesso que o meu corpo quer ficar. Ele diz que ainda tenho os atributos para defender o item por mais alguns anos. Mas a minha alma entende o tempo dos ciclos.”
Ao final de tudo, o vice-presidente Marialvo Brandão celebrou o resgate da autoimagem encarnada: “O Garantido cumpre sua missão. Conseguimos resgatar o sentimento de ser Garantido e fortalecer o nosso boi nesse processo de reconstrução”. A nação vermelha e branca agora aguarda com ansiedade a apuração das notas.
TEXTO ADAPTADO DAS INFORMAÇÕES CEDIDAS PELA ASCOM DO BOI BUMBÁ GARANTIDO






